Yoga

Como surgiu o Yoga?

Crédito: O texto a seguir é uma transcrição de algumas aulas de um grupo de estudos que participei há muitos anos, liderado pelo Enki, do Yoga Bhavani. Recomendo muito o trabalho dele! Vale muito a pena participar dos cursos, grupos e aulas que ele ministra, além de ficar de olho nos conteúdos que produz!

Senta que lá vem história 🙂

A origem do yoga se perde no tempo. Há diversos achados arqueólogicos da pré-história com desenhos de pessoas em posições meditativas, como esse ao lado, que foi encontrado onde hoje é o Paquistão. Na figura temos um “Pachupati” (Senhor das Feras) com diversos animais selvagens ao seu lado, mostrando que o indivíduo encontra-se em profundo estado de concentração. Acredita-se também que as feras sejam uma analogia ao domínio dos instintos humanos mais básicos.

Para entender a evolução histórica do yoga, temos que voltar ao tempo e ir até as primeiras civilizações da Índia. O rio Sarasvati foi a base das primeiras povoações da região. As terras eram férteis e a área era tomada por florestas bastante densas – o que os protegia de invasões externas. Como esses primeiros povos não tinham que se preocupar com agressões de outros povos ou com a subsistência, houve espaço para que alguns seres pouco a pouco pudessem se questionar sobre os fenômenos da natureza e sobre a existência. Ao observarem a natureza, foram percebendo que por detrás dela havia uma força maior, e denominaram essa força de “Mãe”.

Essas pessoas que percebiam as manifestações da natureza de forma mais profunda começam a ser chamados de sraman (aquele que busca a verdade), que então deu origem à palavra xamã que hoje conhecemos. Um tempo depois esses primeiros sábios começaram a se encontrar para compartilhar experiências, e esse lugar que viviam passou a ser chamado de ashrams (local onde vivem os que buscam a verdade).

Ao longo dos anos, muitos povoados começaram a se formar ao redor desses ashrams. Com o crescimento natural da população, a preocupação pela subsistência ficou maior e os conflitos pela divisão dos alimentos se tornou presente. Até então, o respeito mútuo era suficiente para manter a ordem, mas quando os conflitos ficaram mais presentes, um poder central se estabeleceu.

Nessa hierarquia, o sábio ganhou um papel especial. Uma vez que eles acalmavam os estados emocionais das pessoas e as curavam, começaram a receber coisas por gratidão. No início, os sábios que tinham mais sabedoria aceitavam os presentes mas não dependiam deles, já aqueles que não tinham tanta sabedoria viam na situação uma oportunidade de cultivar a dependência do outro para que então recebessem mais coisas em troca e mantivessem sua zona de conforto.

E foi assim que a sociedade começou a se engessar na Índia, surgindo os sistemas de castas. Inicialmente esse sistema respeitava as características e naturais de cada indivíduo. Podíamos encontrar pessoas de várias castas em uma mesma família. Por exemplo, se uma pessoa era mais introspectiva, ela era direcionada para o estudo filosófico (casta dos brâmanes), se outra tinha facilidade com negócios e administração, ía para a casta dos comerciantes, e assim por diante. Ou seja, a sociedade ía sendo direcionada de acordo com a potencialidade de cada um, e a um grupo de potencialidades foi se denominado castas.

No entanto, com o passar dos anos, essa estrutura foi se tornando insustentável, e as relações de poder prevaleceram. Por exemplo, alguém da casta dos brâmares queria que seus filhos também fossem, mesmo que este não tivessem potencial para tal. Com isso, muitos dos ensinamentos foram se perdendo, e aquilo que estava nas escrituras passou a ser um conjunto de regras e “faça” e “não faça”, justamente para que as relações de poder fossem mantidas.

Paralelo a esse movimento, os sábios de fato continuaram a viver de forma livre e autêntica, e formaram o que conhecemos hoje como corrente do Tantra, enquanto que as pessoas que ficaram mais pesa aos ritos e dogmas formaram a corrente Védica. O Tantra sempre foi muito combativo ao sistema de castas. Ele preza pela experiência direta, pela realização. Não se prende às escrituras e busca o entendimento por meio das relações de tudo o que os cerca, além de passar esse conhecimento a qualquer pessoa, independente da sua casta. Já o Veda é baseado em estrutura e regras, além de direcionar o conhecimento a um número restrito de pessoas.

Não muito tempo depois essas duas correntes começaram a se distanciar. Um conflito social se instalou e esses sábios do Tantra foram perseguidos e postos à margem da sociedade. Com essa expulsão muitos desses sábios foram morar em florestas e cavernas.

Os estados alcançados por esses sábios eram exprimidos por meio de uma linguagem, o Sânscrito. O sânscrito é uma língua poética. Cada letra remete a um estado emocional e espiritual. Por isso mesmo é uma língua tão difícil de ser traduzida e transmitida, já que para que alguém a entenda (de fato) é preciso sentir e experienciar esse estado. Por exemplo: é comum traduzirem a palavra Ananda como bem-aventurança, mas na verdade trata-se de um conceito para o sentimento da experiência da felicidade, contentamento e amor que ocorrem ao mesmo tempo.O sânscrito existe há muito tempo, mas sua estrutura gramatical surgiu somente com o Patanjali.

Algumas pessoas foram surgindo ao longo dos anos para resgatar essa espiritualidade mais verdadeira. Um deles é o Krishna, que veio para tentar equalizar a estrutura social e aproximar o viés tântrico do viés védico, sempre batendo na tecla do discernimento e da escolha lúcida. Buda também surge para lembrar que os Vedas não são autoridade, além de deixar inúmeros ensinamentos. Séculos a frente tivemos a presença de outros seres importantes, como Shaytanya e Ramakrishna.

Até então o yoga já era praticado há muito tempo, mas quem estruturou a prática , pegando todos os conceitos principais e colocando-os em uma sequência lógica foi o Patanjali, que publicou tudo isso em um livro chamado Yoga Sutras há mais ou menos 400 a.C. Tal livro possui quatro capítulos, sendo que, de maneira geral, o primeiro lida com a estrutura da mente (o que é a mente, como ela funciona e por que ela está uma “bagunça”), o segundo fala da prática para conquistar o estado tranquilo da mente, o terceiro de como aplicar o controle da mente para desenvolver potenciais e o quarto de como é a mente daquele que se libertou. Com o que Patanjali deixou, foram surgindo gradualmente outras formas de abordagem do yoga. Num próximo post detalho um pouco os sutras do primeiro livro!

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